Fóssil raro de réptil do Triássico é descoberto na Antártida

03/02/2019 10:46

George Dvorsky 14 horas atrás 


 

Os restos fossilizados de um antigo réptil que remonta a cerca de 250 milhões de anos, no período Triássico, foram descobertos no mais improvável dos lugares: na Antártida. A descoberta do fóssil raro mostra como a vida selvagem se recuperou após a pior extinção em massa da história do nosso planeta — e como a Antártida já abrigou um ecossistema diferente de qualquer outro.

Não é preciso dizer que o trabalho paleontológico na Antártida é muito diferente do que em qualquer outro lugar. Ao contrário de Alberta ou Montana, nos Estados Unidos e no Canadá, respectivamente, por exemplo, que apresentam afloramentos rochosos abundantes, a Antártida está coberta por uma enorme camada de gelo, ocultando grande parte da sua história paleontológica. E não é como se a Antártida não tivesse histórias para contar — tem muita coisa para contar. Foi apenas recentemente, nos últimos 30 milhões a 35 milhões de anos, que o continente congelou. Antes disso, ele era o lar de um clima quente, florestas exuberantes, rios velozes e uma notável abundância de vida.

Para encontrar vestígios fossilizados dessa vida esquecida, seja na Antártida ou em qualquer outro lugar, os cientistas precisam encontrar rochas. A Antártida oferece apenas duas possibilidades: ilhas ao longo de sua costa e os Montes Transantárticos Centrais — uma espinha dorsal de montanhas que cortam uma faixa pelo meio do continente. Os cumes desses montes atravessam as geleiras, criando um arquipélago rochoso — e um lugar para os paleontólogos fazerem algumas prospecções. É aqui, na Formação Fremouw dos Montanhas Transantárticos, que Brandon Peecook, paleontólogo do Museu Field de História Natural e principal autor do estudo, descobriu o raro réptil do período Triássico.

"De pé na montanha, era difícil imaginar o quanto a Antártida deveria ser verdadeiramente estranha naquela época", disse Peecook ao Gizmodo. "Olhando ao redor, não pude ver nenhum traço de vida macroscópica por quilômetros, em todas as direções." 


© Fornecido por F451 Midia Ltda.

Na verdade, a Antártida pode estar desolada e inóspita hoje, mas nem sempre foi assim. Centenas de milhões de anos atrás, a Formação Fremouw era o lar de uma floresta vibrante cheia de vida, de insetos alados a répteis herbívoros de quatro patas. A descoberta de um réptil do tamanho de uma iguana anteriormente desconhecido, apelidado de Antarctanax shackletoni, está agora aumentando o nosso conhecimento sobre a antiga glória ecológica do continente.

Antarctanax significa "rei da Antártida", e shackletoni é a ponta do chapéu do explorador britânico Ernest Shackleton. O Antarctanax shackletoni era um arcossauro, que compartilhava um ancestral comum com dinossauros e crocodilos e viveu durante o período Triássico Inferior, há cerca de 250 milhões de anos. Ele é agora um dos primeiros lagartos a aparecer no registro fóssil. Detalhes dessa descoberta foram publicados nesta quinta-feira (31), no periódico Journal of Vertebrate Paleontology.

O fóssil parcial consiste de uma vértebra excelentemente preservada (incluindo pescoço e costas), um crânio parcial, dois pés, algumas costelas e um osso do braço. Ele foi descoberto durante uma expedição à Formação Fremouw durante o verão antártico de 2010-2011. A análise desses ossos fossilizados (particularmente o crânio) e dos fósseis encontrados ao seu lado sugere que ele era um carnívoro de tamanho médio, que comia insetos, anfíbios e protomamíferos antigos. Roger Smith, da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, e Christian Sidor, da Universidade de Washington, em Seattle, ajudaram Peecook na análise.


 

© Fornecido por F451 Midia Ltda.

O Triássico Inferior é de grande interesse para os paleontólogos porque veio na esteira de um dos piores episódios da história da Terra — a extinção em massa do fim do período Permiano, uma época em que o vulcanismo extremo e prolongado extinguiu quase 90% da vida do nosso planeta. Isso resultou em uma ampla reinicialização ecológica, preparando o terreno para que os sobreviventes assumissem o controle. Entre esses sobreviventes estavam os arcossauros, que se aproveitaram da situação ao máximo.

"Um padrão que vemos se repetir, com distúrbios em massa como a extinção em massa do final do Permiano, é que alguns dos animais que conseguiram sobreviver rapidamente encheram os ecoespaços vazios", disse Peecook ao Gizmodo. "Os arcossauros são um grande exemplo disso — um grupo de animais que eram capazes de fazer praticamente tudo. Esse clado ficou completamente louco."


 

© Fornecido por F451 Midia Ltda.

De fato, os arcossauros, incluindo dinossauros, estiveram entre os maiores beneficiários desse período de recuperação, vivenciando um enorme crescimento e diversidade. Antes da extinção em massa, essas criaturas estavam limitadas às regiões equatoriais, mas, depois, estavam "por toda a parte", segundo Peecook —incluindo, como agora sabemos, a Antártida. O continente foi o lar do Antarctanax shackletoni cerca de dez milhões de anos antes do aparecimento dos verdadeiros dinossauros. Como um detalhe extra, a Antártida abrigou dinossauros, mas não antes do período Jurássico.

Esta descoberta também está lançando luz sobre os distintos animais da Antártida. Como a Antártida e a África do Sul estavam fisicamente ligadas na época, os paleontólogos trabalharam sob a suposição de que as duas regiões tinham muito em comum em termos de vida selvagem local. E como os fósseis são abundantes na África do Sul, eles usaram esse registro para fazer deduções sobre o tipo de vida que provavelmente existiu na Antártida. Porém, como Peecook explicou, isso está se revelando um erro; a Antártida abrigou uma ecologia diferente de qualquer outra.

"Conhecemos muito bem o registro fóssil da África do Sul, mas na Antártida só descobrimos cerca de 200 espécies", disse ele. "Entretanto, não encontramos essas espécies em nenhum outro lugar. Os paleontólogos só foram à Antártida algumas vezes, mas, cada vez que vão, encontram novas espécies e novas ocorrências surpreendentes — é realmente empolgante. O argumento inicial de que você poderia conectar esses dois ambientes agora está incorreto. Tem muitas coisas únicas acontecendo no registro antártico."

O fato de a Antártida apresentar um conjunto único de espécies não é surpreendente. Como hoje, o continente estava a uma grande altitude, com dias prolongados no verão e noites prolongadas no inverno. Animais e plantas tiveram que se adaptar para sobreviver, adotando, assim, novas características físicas e estratégias de sobrevivência.

É espantoso pensar em todos os fósseis desconhecidos e fora de alcance presos sob o gelo antártico. Como disse Peecook, a Antártida guarda o registro paleontológico do que já foi um ambiente verdadeiramente exótico.

Fonte: MSN

https://www.msn.com/pt-br/noticias/ciencia-e-tecnologia/fóssil-raro-de-réptil-do-triássico-é-descoberto-na-antártida/ar-BBT5DVB?li=AAggNbi